Textos

COMO COMEÇAR?
As palavras as vezes fogem da minha mente. Tento lembrar de como tudo aconteceu. Cada detalhe está gravado. Mas por que não consigo transferir para o papel? Eu preciso me livrar deste pesadelo porque somente assim, terei finalmente um descanso ‘eterno’.
Nasci no dia 26 de abril de 1963. De acordo com os relatos que sempre ouvi quando criança, foi um parto bastante complicado. No interior do Brasil, tudo era muito mais complicado, ainda mais na década de 60. Mas tudo bem. Vim ao mundo pelas mãos de uma parteira. Não sei o nome e neste momento, também não me interessa.
O destino nos surpreende sempre. Ainda de acordo com os relatos, tanto de minha mãe como das pessoas que conviviam com a família na época, o momento em que nasci, o sol brilhava como nunca, o calor escaldante e no exato momento em que, finalmente, chorei, uma brisa muito fresca invadiu o ambiente onde estávamos. Legal. Ao menos isso as pessoas diziam que foi bom, porque o que veio depois... ah! O depois...
O ano agora é 2033. Parece meio insano né? Mas não é. Exatamente no dia em que completaria 70 anos, acredite, 70 anos muito bem vividos, o destino mais uma vez interveio. Uma brisa suave e fresca entrou em minha casa e era simplesmente deliciosa sentir o aroma de flores silvestres. Algo aconchegante, acolhedor, me deu paz. Fechei meus olhos e dormi. Dormi. Dormi e dormi por quatro dias seguidos. Ao abrir meus olhos, observei que muitas pessoas que há muitos anos não me visitavam, estou falando dos filhos, netos, sobrinhos e irmãos, estavam em minha casa. Interessante isso né. Então... todos estavam lá. Recordo-me que a última vez que nos reunimos, foi no enterro do meu pai. Agora, eles estavam ali para me enterrar.
Estava morta há quatro dias. Ninguém sentira minha falta. Uma vizinha, dessas que sabem tudo da vida de todos, observou a janela aberta por muito tempo e resolveu chamar outro vizinho que ... aí já sabem... eu estava lá, caída no sofá e mortinha da silva.
Chamaram a polícia que, assim como eu, também tiveram a dificuldade de localizar um dos meus filhos. A reunião estava acontecendo. Eu os observava sentada à janela. A brisa suave ainda soprava, ou melhor, continuava soprando.
Muito interessante certas coisas da vida. Conseguia perfeitamente ouvir o que cada um, em seus sussurros ridículos, diziam.
- Será que ela sofreu?

- O que você acha? Ela estava sozinha... nesta casa enorme... e sozinha. Deve ter morrido de solidão e desgosto. Coitadinha da vovó.
Fátima da Silva
Enviado por Fátima da Silva em 07/01/2019
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