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UM DIA ATRAS DE OUTRO....
Não conseguia parar de rir. A risada era... nervosa, espontânea, melindrosa,... estávamos com muito medo. Exatamente isso. Medo era a melhor definição. Continuávamos rindo. Minha irmã e eu. Vou tentar explicar. Lá vai.. Eu tinha dezesseis anos e minha irmã treze. Estávamos sozinhas em casa. Morávamos em uma fazenda. O pai e a mãe haviam ido à cidade levar a caçula ao médico. Até aí, nada demais. Sempre ficávamos sozinhas. Vizinhos? Sei lá qual seria a distância do mais próximo. Isso nunca importou. Até aquele momento. A fazenda era isolada mesmo. Criávamos gado de corte. Meu pai conduzia tudo sozinho. Não tinha empregado. As vezes... isso às vezes mesmo, ele contratava um ou outro peão para ajudar a levantar uma cerca, fazer alguma derrubada... esse tipo de serviço. Não havia funcionário fixo. Então... como dizia, minha irmã e eu estávamos sozinhas. O horário? Cedo. Eram aproximadamente umas duas ou três horas da tarde. Ouvimos barulho no curral. Aí você pode dizer “qual a novidade?” – a novidade é que não tinha nenhum gado no curral. Estava vazio. Aliás, não tínhamos nem uma cabeça de gado na fazenda. Na semana anterior ao que relato agora, papai havia vendido tudo. Inclusive a fazenda. Ficaríamos na terra até o final do ano, depois disso partiríamos para uma casa na cidade. O fato de precisarmos mudar não era o problema. O problema era ter que morar na cidade. Meus pais diziam que precisávamos estudar. “Grande coisa” – a escola rural era muito boa. Mas, ... vamos lá. Sabia atirar. Meu tio me ensinou quando apareceu uma onça na fazenda e eu só tinha oito anos. Modéstia parte “atiro muito bem”. Quando ouvimos o barulho no curral, peguei a espingarda do meu pai e minha irmã e eu fomos averiguar e nos deparamos com um ladrão. Ele nos ameaçou. - Soltem essa arma. Vocês vão se machucar... - O que quer? Vá embora. Ele, acreditando que éramos medrosas, veio para cima de nós. Atirei... atirei várias vezes. Ele caiu sangrando muito. Corremos para a casa e trancamos as portas. De repente, começamos a rir. Riamos sem saber se o que havia acontecido era real ou não. Estávamos com tanto medo e nervosas que não conseguíamos nos controlar. De um momento para outro começamos a chorar. Acho que naquele momento percebemos o que realmente tínhamos feito. E agora? Enrolamos a vida de nossos pais. Minha irmã foi para o banheiro. Ela chorava muito. Eu precisava acalmá-la. Mas como? Como acalmar alguém se eu estava tão nervosa e com tanto medo quanto o dela. - Lice, preste atenção. Será o nosso segredo. Levaremos o que aconteceu aqui para o nosso túmulo. - ... estou ouvindo. - Você ainda é uma criança. Não vai acontecer nada com você. Mas comigo? É diferente, já tenho dezesseis anos. Serei presa e sei lá o que mais. - ... - Consegue compreender a gravidade do problema? Não só para mim, mas... para o pai para a mãe... - O que a gente faz então? - Fique calma. Deixe tudo comigo. - ... tá. O que vamos fazer? - Fique aqui. Vigie. Se o pai e a mãe voltarem, vá correndo me avisar. Não abra a boca. Ok? - ... Boca fechada. Mas... eu estou com medo. - Eu também. Abracei minha irmã tentando acalmá-la. Não sei quem tremia mais, eu ou ela. Olhamos uma no olho na outra e juramos fidelidade. Esse segredo morreria com a gente. Fui correndo para o curral. A distância entre a casa e onde estava aquele indivíduo morto, era de uns quatrocentos metros. Bem no fundo, próximo a um açude, havia um buraco que o Robson, um antigo funcionário, cavou para enterrar uma vaca leiteira que morreu picada por uma cobra. Acontece que... o buraco era muito fundo. A vaca foi arrastada com um trator até esse referido buraco e quando perceberam, não haveria a necessidade de jogar tanta terra. Caberia ali umas trinta vacas. Arrastei o corpo até a beirada do buraco. Sem a menor cerimônia e até uma frieza, que me assustou depois, empurrei um defunto - totalmente irreconhecível e dilacerado – para dentro de uma cova profunda... não tinha noção da dimensão de tudo aquilo. Eu precisava me livrar de todo vestígio de um crime que cometi dentro daquela terra. Entrei no galpão e com enxada e pá arrastei toda terra que conseguia. Coloquei muita terra e areia em um carrinho de mão e despejei, sem nenhum constrangimento, sobre o corpo daquele desconhecido. A mancha de sangue sobre o solo era impressionante. Espalhei mais areia e muito mais terra. Meu coração estava acelerado. Faltava-me fôlego. Corri para casa. Minha irmã assistia televisão. Não piscava. A respiração dela estava ofegante. - E daí?!!!! - Tudo resolvido. Vou tomar um banho. - ... - Você está bem? - Estou. E você? Será que vamos conseguir guardar esse segredo? - Precisamos. Fui para o banheiro. Tomei um banho demorado. Minha irmã pegou nossas roupas e colocou na máquina. Tudo precisava parecer normal. Ao sair do banho, ouvi o barulho do carro. Meus pais haviam chegado. Lice e eu nos comportamos como verdadeiras atrizes. Só demonstramos preocupação com a caçulinha. - Ela está com infecção intestinal. Não se preocupem, já está medicada e em breve tudo estará bem. – disse a mãe. À noite, quando fomos para o nosso quarto, minha irmã perguntou como eu estava e antes de eu responder o pai entrou no quarto: - Quem usou a espingarda? A pergunta nos pegou de surpresa. - Fui eu. - Pra quê? - Tinha uma queixada perto do curral. Eu atirei. - Pai, acho que Nena acertou. Tinha sangue lá. - Eu não quero que usem a “minha” espingarda quando eu não estiver em casa. É muito perigoso. - Desculpa. O olhar do pai foi um tanto acusador. A impressão que eu tive foi de que ele não acreditou em uma palavra do que dissemos. Mas penso que jamais passaria na cabeça dele de que suas filhas seriam capazes de matar alguém. Acidentes acontecem, mas ... eu me livrei do corpo. Nem sabíamos quem era a pessoa. Nem queríamos saber. Pela manhã, acordamos atrasados. Todos estavam cansados. Meus pais por ficarem o dia todo em um hospital com nossa irmã e ... não vou repetir o que vocês já sabem.
Fátima da Silva
Enviado por Fátima da Silva em 29/09/2017
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