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SONHO
SONHO

Tive um sonho estranho. Semana passada, precisei viajar a trabalho. Durante a viagem, os colegas falavam sobre vários assuntos. Eu permaneci calada mais do que de costume. Alguns me perguntaram se estava tudo bem. Como não estava, disse apenas que minha cabeça doía muito, o que era verdade. Tentei dormir. Tudo em vão. Risadas, conversas paralelas, e a dor de cabeça aumentando. Tomei três comprimidos de uma vez. A pressão caiu e eu finalmente dormi.
Acordei com alguém passando a mão em meu rosto:
- Acorde, Bela Adormecida. Chegamos.
Acordei um pouco assustada. Não havia mais ninguém no ônibus.
- Você dormiu mesmo! Qual o seu nome?
- Só estava com muita dor de cabeça. Tomei uma dose extra de remédio, por isso dormi bastante.
- Tá. Venha que eu te ajudo.
Não reparei em quem me ajudava a descer do ônibus. A pessoa foi gentil e eu reservada. Entrei no hotel, fiz meu cadastro e dirigi-me ao quarto. De repente alguém bate à porta:
- Oi, posso entrar?
- Por quê?
- Porque vamos dividir o quarto.
- O quê? Isso é impossível! Eu não te conheço.
- Nem eu conheço você. Mas é o único quarto com duas camas e uma está disponível. Você não vai querer que eu seja o único a ficar em outro hotel. Vai?
- Depende. Vou falar com o gerente.
- Para com isso colega. Somos colegas de trabalho, tudo bem que de municípios diferentes, mas colegas. Tudo vai dar certo. São três dias apenas. Não te incomodo, se você não me incomodar é claro.
- Ok! Respeite o meu espaço. A cama grande já é minha. E não ande pelado pelo quarto.
- Eu respeito se você se comportar.
- Como assim? Se eu me comportar?
- Tome banho com a porta trancada, não saia nua do banheiro e durma vestida.
- Babaca. Se você tentar qualquer coisa eu chamo a polícia.
- O gerente já me avisou.
Alguém bate à porta novamente.
- Entre!! – falamos os dois ao mesmo tempo.
- Boa noite!
- Boa noite!
- Meu nome é Alfredo. Sou o gerente do hotel e vim pedir-lhe desculpas senhora Viviane, pois infelizmente não temos mais nenhum quarto para hospedar o seu colega. Ele sugeriu que ficassem no mesmo quarto.
Olhei para aquele estranho com olhos de reprovação e só então enxerguei a beldade que estava à minha frente. O cara era lindooooooo.
- Entretanto, se a senhora não quiser a presença dele, nós o encaminharemos para um outro hotel até que um outro quarto fique desocupado.
- Por enquanto tudo bem. Mas ao primeiro sinal de problemas eu processo vocês.
- Não se preocupe, colega, tudo dará certo. Ninguém processará ninguém.
- Assim esperamos – disse o gerente do hotel. Mas, como já foi dito, qualquer problema, é só chamar. Tenham uma boa noite.
- Assim espero. Boa noite.
- Boa noite.
- ...........
Quando o gerente saiu. Comecei a desfazer minhas malas. Separei o que usaria no jantar e arrumei outras coisas no armário. O meu ‘colega’ de quarto, simplesmente tirou a camisa e deitou-se com o celular e ficou ali, de bruços, falando sei lá com quem.
Quando terminei de arrumar minhas roupas no armário, ouvi o chuveiro ligado. Olhei, .... “ – cadê o sujeito?” – estava tomando banho. Não havia mexido em nada. “Só falta o cara sair só de toalha do banheiro – ou pior, pelado.” Fiquei na minha. Esperando a minha vez de tomar banho. Ele saiu enrolado, abriu a mala e perguntou-me:
- Não vai tomar banho?
- ...........
Não falei nada. Fui direto ao banheiro e:
- Você não sabe fechar o box? – Disse-lhe abrindo a porta do banheiro.
- Ei, não tá vendo que estou sem roupas? Volte para o seu banho.
Fiquei sem ação. Tomei meu banho. Demorei mais do que o necessário. Esperava que ao sair ele não estivesse mais lá. Ledo engano. Lá estava o sujeito, que nem o nome eu sabia, sentado, me esperando para jantarmos.
- O que está fazendo aqui, ainda?
- Te esperando. Sou um cavalheiro e como tal, não a deixarei ir ao restaurante desacompanhada.
Sorri. Um sorriso meio sem graça. Mas sorri. Retribui-me o sorriso. Foi super simpático.
- Ficarei no banheiro até que se arrume. Tudo bem?
- ............
Coloquei minhas roupas e disse-lhe que podia sair.
- Você está linda!
- Ainda não estou pronta.
- Não precisa de mais nada. Você está linda assim. Sem maquiagem, ao natural.
- Obrigada. Mas, não! Prefiro uma maquiagenzinha básica. Pode ser?
- Poder, pode. Mas não necessário.
Fiz o básico do básico. Aquele homem me olhando me constrangia.
- Estou pronta.
- Meu nome é Felipe.
- O meu é Viviane.
Felipe me acompanhou. Conversamos sobre um monte de coisas.
- Felipe, desculpe-me, mas eu quero falar com o motorista do nosso ônibus.
- Sobre o quê?
- Quando chegamos, alguém me acordou e me ajudou com as malas. Eu estava tão cansada, que não agradeci e muito menos sei quem foi. Talvez o motorista saiba.
- Caramba! Você dormiu mesmo.
- Eu tomei....
- Uma dose extra de remédio. Eu sei, você já me falou...
- Eu? Quando?
- Quando te acordei e te ajudei...
- Foi você?
- Se não acredita, é só perguntar ao motorista.
- Obrigada Felipe, você foi muito gentil.
- Eu é que agradeço por conhecer você.
- ......
Jantamos. A companhia foi agradabilíssima. Rimos bastante e depois resolvemos dar uma volta pela cidade. Florianópolis estava linda naquela noite. Caminhamos pela orla e resolvemos dar uma esticadinha até a areia da praia. Felipe contava uma piada atrás da outra. Eu? Curtindo tudo.
- Vamos voltar para o hotel porque amanhã começamos bem cedo.
- O desmancha prazer. Minha companhia não agradou?
- Esqueceu que estamos no mesmo quarto, senhor engraçadinho.
- E tem como esquecer...
- Olha o combinado...
Voltamos ao hotel. Já era tarde, mas eu estava sem sono.
- Felipe, vou ao quarto. Preciso adiantar umas coisas para a conferência. Ok?
- Eu te acompanho. Também preciso antecipar algumas coisas, afinal não estamos aqui à passeio, certo?
- Certo.
A maioria das pessoas do nosso grupo já estavam em seus quartos. O dia prometia muito trabalho. Por isso a necessidade de descanso.
Troquei de roupas. Fiquei um pouco mais à vontade. Não tanto à vontade. Liguei meu computador e sentada na minha cama comecei a repassar os assuntos mais polêmicos da conferência do dia seguinte. Felipe fazia o mesmo.
- Viviane, me ajude em uma coisa.
- Fale.
- Se o palestrante não comparecer. Quem o substituirá?
- Eu. – respondi naturalmente.
- Você é a doutora Viviane Gonzaga?
- Sim. Você não sabia?
- Não.
- Muda alguma coisa?
- É claro que muda.
- O quê?
- Se eu tocar em você, além de ir para a cadeia, ainda perco o meu emprego.
As respostas dadas à Felipe, eram dadas sem que eu tirasse os olhos do computador, afinal precisava me concentrar na conferência. Mas naquele momento, simplesmente parei e ao levantar os olhos, enxerguei um homem lindo e preocupado com o próprio comportamento diante de alguém que podia demiti-lo.
Comecei a rir. Não conseguia parar.
- Volte ao trabalho Felipe. Não sofra antes do tempo e mais um detalhe, você vai se comportar muito bem. Se não fosse eu aqui, com você, se fosse qualquer outra mulher que fizesse uma denúncia de assédio ou violência sexual, era rua e cadeia. Agora, volte ao trabalho.
- Ok! Posso ver o assunto que focará amanhã?
- Pode.
Felipe sentou-se ao meu lado. Como cheirava bem. Ficamos bem pertinho; ele estava de short e camiseta. As pernas bonitas, o sorriso perfeito. De repente começou a bocejar. Acomodou-se e simplesmente, dormiu. Exatamente isso que você, leitor, está pensando: Felipe dormiu. Não tive coragem de acordá-lo. O porquê eu não sei. Mas, não acordei. O sono e o cansaço também chegaram para mim. Desliguei os computadores e ... dormi. Deixei ele ali, quietinho, tão lindo, dormindo.
Quando amanheceu, levei um susto porque as mãos de Felipe estavam tocando em mim. Ele também se assustou. Pediu mil desculpas e correu para o banheiro.
- Feche o box. Não suporto banheiro molhado.
- .............
  Quando saiu, não conseguia me encarar. Sorri e notei que ficou vermelho. Fui ao banheiro. Fiz minha higiene matinal e sai de toalha. Não me incomodei com a presença dele no quarto. Coloquei a toalha sobre a cama e separei as roupas que usaria. Ele me olhou espantado. Não consegui imaginar o que se passava naquela mente masculina. Também não me importei. Me arrumei e o chamei para tomarmos o café e seguirmos para a conferência. Felipe só acenou com a cabeça e saímos.
Durante o café, Felipe não tirou os olhos do computador. Ele estava muito preocupado com os debates que seguiriam após cada palestra. Ele era o responsável pelos debates.
- Boa sorte Felipe. Não se preocupe, tudo sairá como planejamos.
- Tomara que não...
- O que disse?
- Eu disse: tomara...
Fomos para o auditório. O palestrante oficial compareceu. Cumpriu com o contrato. O meu papel ali era somente conduzir o rumo dos assuntos expostos.
Durante o almoço eu não vi Felipe. Voltei para o auditório, fiz o que era para ser feito e a palestra da tarde ficou sob a minha responsabilidade. Debatemos o tema e após as divisões dos grupos e a elaboração do documento oficial, voltei para o hotel.
O gerente me pergunta se estava tudo bem.
- Sim, sem problemas.
- Qualquer coisa nos comunique. Estamos providenciando um outro quarto.
- Muito obrigada.
Ao adentrar no quarto, percebi que Felipe não havia retornado. Então, aproveitando a ausência dele, tomei banho, arrumei minhas coisas, preparei-me para o jantar. Quando já estava saindo, Felipe chega:
- Ia jantar sem mim?
- E qual o problema?
- Sou um cavalheiro e uma dama não pode jantar sozinha. Me espere dez minutinhos.... pode ser?
- Claro, eu te espero.
Menos de dez minutos ele estava radiante.
- Vamos jantar fora do hotel?
- Por quê?
- Você verá! Surpresa. Sem perguntas.
Ao sairmos do hotel, Felipe dirigiu até um restaurante à beira mar. Um lugar belíssimo. Lugar romântico.
- Pra que tudo isso?
- Eu disse sem perguntas.
Jantamos, conversamos como na noite anterior, descontraídos. Felipe foi, novamente, um gentleman.
- Vamos voltar? Já esta tarde.
- Nunca teve vontade de dormir na praia.?
- Sinceramente?
- Claro!
- Nunca. Vamos voltar.
- Você quebra qualquer clima. É sempre assim?
- Não Felipe. É claro que não.
- ......
- Perto de você eu me sinto indefesa. Tenho medo das minhas reações.
- Como você acha que eu estou? Olha pra mim... estou apavorado.
- .... – fiquei sem entender.
- Eu estava cansado ontem, muito cansado. O fato de ter adormecido ao seu lado, não foi de propósito. Não era essa a minha intenção.
- .......
- Quando acordei ao seu lado... quase tive uma parada cardíaca.
Comecei a rir.
- Não ria assim. Estou falando a verdade.
- Eu sei. Mas foi engraçado o seu jeito pela manhã.
- Foi desconcertante.
- E agora, Felipe?
- E agora, Viviane?
Voltamos para o hotel. No carro, enquanto Felipe dirigia, toquei na mão dele. Ele levou um susto. Olhou-me e nada disse, eu só sorri. Ele permitiu que minha mão permanecesse na dele. Trocamos carinhos infantis, trocamos olhares de desejo. Finalmente quando chegamos ao hotel, o gerente veio ao nosso encontro dizendo que já tinha um quarto desocupado que tanto eu como Felipe, poderíamos mudar. Nos olhamos e eu aguardei a resposta dele, a posição dele, a atitude dele.
- Vamos continuar juntos, no mesmo quarto.
Falando assim, segurou minha mão e conduziu-me até o “nosso” quarto. Antes de entrarmos, Felipe olhou em meus olhos e beijou-me. Que beijo ardente, cheio de desejo, cheio de paixão.
- Não vai me processar?
- Não, estou sendo conivente com o ato.
Ao chegarmos à cama, Felipe foi perfeito. Caímos juntos. Cada toque, cada sussurro, cada beijo ardente era marcante para a ocasião. Nos amamos como dois animais. Desmaiamos em um gozo perfeito. Ficamos ali, parados, recuperando o fôlego.
- Eu te desejei no momento em que te vi.
- ... – nada falei.
- Viviane, você entendeu o que eu disse?
- Claro que sim. Só não caiu a ficha. Eu não sei o que está acontecendo.
-  Simples. Eu te desejei. Agora eu estou apaixonado por você.
Quando ouvi a palavra “apaixonado”, meu coração gelou. Como alguém poderia se apaixonar assim, tão rápido. Tesão é uma coisa, mas paixão?
- Apaixonado Felipe?
- Sim, por que não?
- Não me conhece.
- Não acredita em amor à primeira vista?
- Não.
- Pois eu acredito e vou conquistar você.
Sorri e achei adorável cada palavra de Felipe. Ele era um romântico. Isso me incomodava, me dava medo. Mas aceitei.
Trabalhamos juntos mais dois dias de conferência e a cada momento nos aproximávamos mais. Eu estava ‘apaixonada’. E agora, Viviane? Essa era a pergunta que não queria calar. E agora?
As noites foram fabulosas. Felipe era delicioso. Atencioso. Cavalheiro. Tudo o que uma mulher poderia querer em um homem.
Terminados os trabalhos, resolvemos voltar para Curitiba de carro. Como não trabalhávamos no mesmo município, Felipe ficaria alguns dias comigo. Depois decidiríamos o que iríamos fazer. Dois dias um homem em minha casa. Moro sozinha há quinze anos. Só me dedico ao trabalho e mais nada. Agora em três dias, trago um cara para o meu “sagrado lar”. Um cara que eu conheço muito pouco.
Aproveitamos bastante. Passeamos. Fizemos amor. Conversamos, fizemos planos. E Felipe foi embora.
Felipe foi embora. Embora de verdade. Nunca mais apareceu, nunca mais ligou. Não respondeu meus recados. Pediu demissão da empresa e foi embora.
Simples assim... foi embora.


Ontem, quando acordei, liguei para o escritório onde Felipe trabalhava.
- Dr. Viviane?
- Sim, sou eu – quero falar com Felipe Gomes Vitorino.
- Perdoe-me doutora, mas aqui nunca trabalhou nenhuma pessoa com esse nome.
- ............ – desculpe-me.
Olhei no relógio.
- Será que o tempo parou?
Não, o tempo não havia parado. Eu sonhei tudo. Felipe nunca existiu. Doutora Viviane, nunca existiu. Eu nunca existi. Tudo foi um sonho. Eu sonhei com um amor perfeito, sonhei com uma relação perfeita. Sonhei com o homem perfeito. Sonhei que eu era a mulher perfeita para alguém. Sonho, somente um sonho.


Fátima da Silva
Enviado por Fátima da Silva em 15/10/2016
Alterado em 06/01/2017
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