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MADRUGADA VIAJANDO
MADRUGADA VIAJANDO
Sempre gostei de viajar, gosto mesmo, de verdade. Mas a última... foi inusitada. Sairia de minha cidade pela manhã. Não sou fã de dirigir à noite. Sou uma motorista diurna. Como estava dizendo, sairia pela manhã, mas uma amiga me ligou para saber se não queria fazer companhia a ela em uma viagem. De ônibus... achei interessante e topei... que viagem foi aquela. A vontade que eu tinha era de matar minha “ex” amiga. Vamos ao relato.
“Peguei o ônibus nove da manhã. Minha amiga ficou doente, assim, de repente, e pediu para que eu fosse em seu lugar levando um material para..... sei lá o que, coisas do trabalho dela. Fiquei um pouco desconfiada, até que vi do que se tratava. Como eu ia dizendo, saímos com destino a Rio Branco, Acre, às “nove horas da madrugada”. Não estava muito afim de conversar. Queria ficar no meu canto. Assim permaneci por um bom tempo. Poltronas desconfortáveis. ... de vez em quando uma cara, sentado logo a minha frente, no corredor do ônibus, me olhava. Acho que era gay. Um sorriso discreto, bonito, mas bastante discreto. A cada parada daquele veiculo o incomodo aumentava. Já estava ficando irritada, dor de cabeça, sem conseguir dormir, nada a meu favor. Aí, do nada, alguém puxou conversa comigo. Queria saber meu nome, onde morava, trabalho, essas coisas. A viagem ficou mais emocionante. Muita conversa, risadas e o carinha da poltrona da frente falou algumas coisas que não me chamaram a atenção naquele momento. Novas paradas... eu fazendo amigos novos... risadas... até que o inusitado aconteceu. Em um trecho da estrada, totalmente deserto, o nosso ônibus desceu “ladeira abaixo”. Foi assustador. O motorista disse para não nos preocuparmos que estava tudo sobre o controle dele. Isso era o que mais me preocupava, estar sobre o controle dele. Aquela ladeira, perigosíssima, era o acesso ao local onde ficaríamos hospedados. Era um hotel rústico. Elegante, mas rústico. Chique, mas ainda assim rústico. A verdade é que eu não queria, não deveria e muito menos poderia estar ali. Fui enganada novamente. As pessoas que estavam no ônibus participariam de um seminário sobre sobrevivência na selva e depois aplicariam o que aprenderam. Adivinha com quem fiz dupla? Exatamente, o jovenzinho sorridente. Durante duas tardes, trocamos algumas palavras, o essencial e nada mais. Depois tivemos a oportunidade, tudo isso antes de irmos para a prática do seminário (sobreviver na selva), de passear pelos arredores da pousada. Era um lugar bonito. Colhemos amostra de algumas plantas, conversamos sobre assuntos diversos e combinamos de jantarmos juntos. Até aí tudo bem, a confiança um no outro precisava existir se quiséssemos “sobreviver à selva”. Nada deu certo. Cada um foi para um lado. Só no reencontramos muito tarde da noite. Havia um grupo próximo a uma fogueira. Todos estavam ansiosos porque pela manhã sairíamos rumo ao desconhecido. Neste momento olhei para o meu parceiro, ele me olhava e me desejava. Fiquei encabulada, desviei o olhar. Mas o flerte continuou e eu entrei no jogo. Algumas gargalhadas; depois, resolvi me deitar. Cinco minutos e alguém bate à porta. Era ele, aquele jovem querendo saber se estava tudo bem. Respondi que sim. Queria saber se eu precisava de alguma coisa, se já havia conferido todo o equipamento... disse para que ele entrasse e conferisse por ele mesmo. O meu parceiro entrou em meu quarto, fechou a porta, conferiu todo o equipamento para a grande aventura e me disse – boa noite. Com um jeito super natural perguntei-lhe se não queria ficar. Ele olhou-me nos olhos, enxergando quase a minha alma e beijou-me. Um beijo ardente, desejado, gostoso. Senti medo, calafrios, várias sensações ao mesmo tempo. Pedi para afastar-se, ele não obedeceu. Nos jogamos na cama. A mão dele deslizava em mim com uma facilidade maravilhosa. Deixei as coisas acontecerem. Cada beijo, cada mordida, cada carícia, cada toque fazia com que eu delirasse de tanto prazer. Gemidos, sussurros, pele com pele, sexo com sexo. Assim adormecemos.”
Pela manhã, não nos vimos, cada um para um lado. Você um homem jovem, interessante, o que estaria fazendo ali, comigo, por que eu? Essa pergunta rondava minha cabeça: Por que eu? Não queria saber de respostas. Tudo aquilo era passageiro. Após as táticas de sobrevivência, não nos encontraríamos mais e acabou. Foi deliciosamente delicioso tudo o que aconteceu mas não aconteceria novamente.
E aconteceu. Melhor, muito melhor. O nosso comandante nos entregou o mapa e disse que deveríamos cumprir todas as ordens para não nos perdermos. Olhamos um no olho do outro e partimos. Ninguém dizia nada. Como se a noite anterior nunca tivesse existido. Eu não iria tocar no assunto. Fiquei calada. O mapa estava nas mãos dele. De repente ele para. Segura em minha mão e diz para eu esperar. Obedeço. Não sei o que está acontecendo, estamos na mata, mata fechada, só ouço barulho do vento e dos animais. Estávamos caminhando a mais de duas horas; eu muda. ele calado. E agora... ali parados, tentando ouvir sei lá o quê.
“Fique quieta”, foi a única coisa que ouvi. E, do nada, chuva, muita chuva. Para a nossa segurança, resolvemos acampar um pouco mais adiante, para não corrermos o risco de amanhecermos debaixo de água. O lugar foi escolhido com calma e precisão. Comecei a montar a minha barraca. Meu parceiro, mesmo sabendo que o acordo para a competição era que um só ajudaria o outro em caso de perigo, ajudou-me. Achei justo retribuir o favor e fui ajudá-lo.
“Vou ficar na sua barraca”, o tom de comando, me fascinava. Nada consegui dizer, a não ser concordar com leve movimento da cabeça. A chuva aumentou. Não era chuva era quase um dilúvio. Na barraca? Nós dois. Calados. Eu não sabia ou não conseguia dizer nada. Ele? Mudo. Olhando o tempo todo para o chão. Me deu um medo.... será que eu não estava, ali, com um psicopata? Tudo me passava pela cabeça. Quando finalmente ouvi a voz pedindo para eu me acalmar. Estava tudo bem, que eu não precisava sentir medo, me protegeria. Sorri. Um sorriso tímido. Mas ainda estava insegura.
Segurou minhas mãos e em seguida me abraçou. Um abraço aconchegante, quente, suave e ao mesmo tempo forte. E tudo recomeçou como na noite anterior. Beijo molhado. Mão deslizando o meu corpo. Cada toque era como se, lá fora, toda a natureza conspirasse a nosso favor. Quando senti o corpo dele dentro de mim... tive a certeza de a natureza estava conspirando. Os movimentos eram sincronizados, combinados, perfeitos, e finalmente, ... o gozo total. Mais uma vez adormecemos, abraçados, ligados. Nada existia naquele momento mágico. Nada importava. Tudo o que permanecia eram dois corpos unidos pelo desejo de estarem juntos. Nada além disso.
O dia amanheceu. O sol forte, mesmo na mata, já demonstrava que estávamos atrasados em relação às outras duplas. Um beijo ardente e .... partimos.
Cumprimos todas as missões. Fomos os últimos. Mas estávamos felizes. Fomos discretos. Fomos articuladores. Fomos hipócritas. Mas eu estava maravilhosamente feliz.
Ao entardecer do último dia, resolvi me afastar dos grupos. Precisa ficar um pouco só. Refletir sobre os acontecimentos anteriores, se foi um sonho e se algum dia se tornaria em pesadelo. Naquele momento eu precisava, desesperadamente, ficar sozinha.
Sentei-me debaixo de uma árvore, longe das conversas e ali fiquei por um bom tempo. Acho que adormeci porque eu me assustei quando ele chegou perto dizendo que estava na hora. Hora de quê? Da despedida. Sentou-se junto a mim, me abraçou dizendo que eu tinha sido maravilhosa e todas aquelas babuzeiras que os caras falam quando querem que a gente dê o fora... ouvi cada palavra, mas não escutei nenhuma. Olhei aquela boca e beijei. Um beijo ardente. Um beijo de adeus. Exatamente, o beijo foi de adeus.
Não trocamos números de telefone, endereço, nada, absolutamente nada. Deixaríamos o destino fazer o seu papel. Se acontecer? É porque tinha que ser. Se não? Ficará uma lembrança maravilhosa para mim. Foi bom, foi possível, foi real. Não sei se foi real ou mais um fruto de minha imaginação. Fique por conta de você.
Até o próximo.

Fátima da Silva
Enviado por Fátima da Silva em 26/07/2016
Alterado em 05/09/2017
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